ECONOMIA / 22.09.17

As razões para o otimismo do mercado

VALOR ECONÔMICO

Há razões para o entusiasmo dos mercados, nas últimas semanas, que vão além de meras esperanças e desejos, com a bolsa de valores em alta, os juros em queda e a taxa de câmbio estável. O principal estímulo vem de fora, com o crescimento sincronizado e não inflacionário da economia mundial, farta liquidez, juros baixos e maior apetite por ativos de risco das economias emergentes. "O céu das finanças globais é de brigadeiro, extremamente benigno, e não há sinais visíveis de mudança desse quadro", comentou um gestor de fundos de investimentos.

Há, também, motivos domésticos para sustentar o ambiente que prenuncia um crescimento econômico depois de uma longa recessão, de 2,5% a 3% em 2018, segundo analistas. Apesar da fragilidade política do governo e da enorme dificuldade de consertar o rombo das contas públicas herdado da gestão anterior, o fato de os mercados não contarem com a queda de Michel Temer por denúncias de corrupção é um atenuante do impacto da crise política. Uma parte dos analistas acredita que ainda que o governo não consiga aprovar a reforma da Previdência agora, ela será a primeira iniciativa do próximo presidente. O fato, porém, é que, se aprovada este ano, mesmo que restrita à idade mínima e à regra de transição, a reforma daria credibilidade ao teto para o gasto público e viabilizaria uma taxa de juros talvez até mais baixa do que espera o mercado. Isso permitiria o início de um "ciclo virtuoso" para além da retomada cíclica do crescimento, avalia o ex-diretor do Banco Central Mário Torós, sócio da Ibiuna Investimentos.

O que, segundo ele, tornaria o país mais preparado para enfrentar o fim dos bons ventos externos, que não costumam durar para sempre. A inflação baixa e sob controle e a queda da taxa de juros para algo como 6,75% a 7% ao ano - patamar que encerraria o ciclo de cortes da Selic - são, também, contribuições relevantes ao cenário que se firma de retomada da atividade.

"Agora estamos conseguindo ver o copo meio cheio", disse Torós, que atribui esse mérito à área econômica do governo que está tomando medidas na direção correta. Destaca-se, aí, a decisão de antecipar o pagamento de R$ 180 bilhões do BNDES ao Tesouro Nacional, sendo R$ 50 bilhões este ano e R$ 130 bilhões em 2018. Esse dinheiro e as expectativas de crescimento devem representar uma importante mudança na trajetória da dívida como proporção do PIB para os próximos anos. Ao abater R$ 180 bilhões do seu estoque, a dívida bruta, que chega a 75% do PIB este ano, fica estável em 2018, interrompendo anos de crescimento insustentável.

Segundo cálculos feitos pela Ibiúna Investimentos a pedido desta coluna com base no cenário da pesquisa Focus, no teto para o gasto (que pressupõe ter aprovada a reforma da Previdência) e no BNDES, a trajetória da dívida bruta seria de um aumento mais suave do que o esperado, chegando a 79% do PIB em 2022 e não a quase 100% do PIB. Com a recuperação do superávit primário a partir daí, a dívida voltaria ao atual patamar em 2026. Como principal indicador de solvência do país, uma mudança no ritmo de crescimento da dívida tem impacto não desprezível nas expectativas econômicas.

Nem todos, é claro, têm uma visão otimista sobre o futuro. Até porque o grande fator de risco para 2018 em diante está nas eleições do próximo ano, que ainda não constam dos preços dos ativos. "Está cedo para colocar o risco eleitoral nos preços e isso só deverá ocorrer no primeiro trimestre do ano que vem", indicou um economista da área financeira. Por enquanto o que há é a visão de que o eleitor brasileiro não gosta dos extremos e votará em alguém do centro. Os candidatos dos extremos, Lula à esquerda e Jair Bolsonaro à direita, porém, estão sólidos nas pesquisas, enquanto o centro está pulverizado.

O mercado tem considerado Lula cada dia mais fora do páreo, o que não é ainda uma certeza. Há quem tema um estresse eleitoral em 2018 semelhante ao de 2002 - quando Lula teve que escrever a Carta aos Brasileiros comprometendo-se com a estabilidade econômica e respeito a contratos - que pode desembocar em sérias dificuldades de financiamento da dívida pública.

Esse é o caso, por exemplo, de um diretor de um grande banco, para quem as condições fiscais hoje são muito piores do que as do passado e isso, junto com um eventual candidato competitivo que não preza a racionalidade econômica, pode ser explosivo. São cenários distintos que povoam as expectativas dos analistas e que dependem fundamentalmente de quem vai vencer o pleito de 2018. Os governos do Brasil têm sido useiros e vezeiros em deixar boas oportunidades escapar das mãos, não aproveitando os ciclos de bonança interna ou externa para fortalecer a economia local. O presidente, com 3,4% de popularidade, poderia ser o agente de mudança do script. Afinal, ele não tem o que perder. Ao contrário, pode até ganhar um lugar na história.

Compartilhe